Primeira etapa internacional do Projeto Imagine aconteceu no Peru
O cenário pré-viagem se passa nos laboratórios de biologia molecular da Universidade Federal de Santa Catarina. Os preparativos envolvem microscópio, jalecos, pipetas e amostras de DNA. Embala tudo, conserva em gelo seco, encaixa! Tudo isso terá que ser transportado. É aí que começa a jornada de levar conhecimento científico a uma comunidade rural no Vale Sagrado dos Incas.
A missão, com o objetivo de popularizar a ciência em lugares de difícil acesso, aconteceu a 3.900 quilômetros de casa: essa é a distância aproximada entre a UFSC e a província peruana de Calca. Porém, atravessar fronteiras com material biológico pode ser uma maratona! Os aeroportos se transformam em uma pista de obstáculos: passa pelo Ministério da Agricultura, avança no raio-X, conversa com as autoridades e as convence de que o material transportado não é explosivo. A dor de cabeça começa aí! Mas, por enquanto, os sintomas são mais psicológicos que físicos. Depois é que vem o cansaço de verdade. O coração bate forte, acelera! E isso não tem a ver com as burocracias enfrentadas. É, na verdade, a consequência de estar à altitude de 3.400 metros.
Quem vive em cidades ao nível do mar ou em localidades relativamente baixas não está acostumado às condições atmosféricas das grandes altitudes. Portanto, o organismo sente o impacto da mudança e precisa de tempo para se adaptar. Nesse período, os sintomas mais comuns são respiração curta, dores de cabeça, náusea, vômitos e tontura. Uma dica para evitar o mal de altitude é beber chá de coca ou mesmo mascar as folhas da planta. Há séculos os andinos utilizam a coca como estimulante e também para controlar as sensações de sede, fome e frio.
As atividades do Projeto Imagine aconteceram durante os dias 31 de julho e 3 de agosto, no colégio Sagrado Corazón de Jesus, e em parceria com a Universidad Andina del Cusco. Um grupo de 18 adolescentes, todos vindos de famílias de agricultores, participaram das atividades de estudo sobre DNA, hereditariedade e diversidade.
“Nós escutamos falar de ciência, assistimos a esse assunto na televisão e, inclusive, estudamos a ciência. Mas quase sempre de uma forma limitada aos livros e à teoria. No Projeto Imagine, a ideia é que todos tenham a oportunidade de por a mão na massa, compreendendo a diferença entre os seres humanos e valorizando as suas semelhanças”, explica o coordenador geral do Projeto Imagine André Ramos.
“O que mais surpreendeu foi o envolvimento rápido que os alunos tiveram logo no primeiro dia de curso. A gente achava que teria uma dificuldade com o idioma ou com a comunicação, talvez até pelo dialeto quechua, mas não!” relata Guilherme Razzera, professor de bioquímica e membro do projeto. “Eu comecei a ver o retorno que a gente tem da parte deles, nos ensinando e nos mostrando como é o entorno deles.”
“Eles nos falaram muito sobre a agricultura”, conta Tomás Rostirolla, estudante de biologia e membro do Projeto Imagine. “Existem mais de mil espécies de milho no Peru e 8 mil espécies de batata, que foram cultivadas pelos incas. Além da quinoa, que é outro alimento ancestral. Até hoje, esses três alimentos compõem a base da alimentação local.”
No dia 1º de Agosto, é celebrado o Ano Novo do Império Inca. “A cada colheita que chega, é um novo ano que se realiza. Nesta data, há um culto de pagamento à terra, que chamamos de Pacha Mamma, porque a Pacha Mamma existe! É a Mãe Terra”, conta o professor do colégio Sagrado Corazón de Jesus, Mario Mamani. Segundo a tradição, é comum, como forma de oferenda, derramar chicha na porta das casas, uma bebida alcoólica feita de milho.
Os incas acreditavam em vários deuses, sendo Inti o mais forte, o deus do sol. A própria palavra inca significa filho do sol. Porém, cultuavam também animais considerados sagrados, como o condor e o jaguar.
O projeto vem sendo desenvolvido desde 2013 e já foi executado em uma comunidade rural isolada e uma aldeia indígena do interior do estado de Santa Catarina. As próximas etapas serão no Marrocos, Angola e México. Além do atual módulo de DNA, dois outros módulos já estão sendo preparados, sobre os temas Energia e Astronomia.
Um documentário sobre a primeira etapa internacional – no Peru – está em fase de edição e, em breve, estará disponível no canal do YouTube do Projeto Imagine.













